terça-feira, 17 de abril de 2018

OBJECTOS E ESPAÇO TRANSICIONAIS



Imagem do Google



            Há tempos (meses, talvez), redigímos, neste mesmo espaço, um texto, cujo foco principal procurou fazer regressar à luz os tenebrosos e negros idos dos séculos XIX e XX, em Inglaterra. Vivia-se em plena era industrial e, nessa altura, as crianças trabalhavam como gente grande e desamparada. Ao tempo, foi produzida alguma legislação que, pretensamente, visava proteger as crianças, embora estas, na letra da lei, continuassem a ser simples propriedade dos pais. Por tudo isto, a mortalidade infantil constituía mais um dos inumeráveis crimes hediondos da sociedade britânica.

            Contudo, em meados do século XX, nomeadamente durante a Segunda Guerra Mundial, as crianças passaram a ser olhadas de uma outra perspectiva. Procuraram, então, quer os pediatras ingleses, quer os americanos, refrear o autoritarismo que pendia sobre seres tão frágeis e indefesos, alertando as respectivas sociedades e todos quantos os quisessem escutar, para a necessidade imperiosa de tratar os infantes, nos seus anos mais tenros, com o devido carinho, ternura e amor. Tanto Bakwin como René Spitz constataram rapidamente a enorme diminuição do apagamento e da mortalidade infantil (até aí entre os 70 e os 100%), nos dois primeiros anos de vida, logo que a presença das mães, junto dos filhos hospitalizados, se tornou efectiva.

            Donald Woods Winnicott (1896-1971) mostrou-se incansável também, na forma como, via rádio, se dirigiu às mães, apelando ao fim do autoritarismo ao mesmo tempo que as exortava ao amor, à ternura afectiva, não só no momento da amamentação ou da papa, mas também nas ocasiões de limpeza e higiene. Winnicott sublinhou que nenhuma dessas interacções pode ou deve ser obrigação ou rotina, mas, no âmbito do amor de mãe, constituirá uma gratificante recompensa. E foi mais longe: este elo afectivo edificante que é o amor materno, em cada uma destas situações, será o alicerce das relações sociais futuras da criança. Também Alfred Adler (1870-1937) o afirmara antes.

            Refira-se, a título de curiosidade, e pelo facto ter ocorrido ainda em 1946, o lançamento do livro Pocket Book of Baby and Child Care, assinado por Benjamin Spock. Esta obra viria reforçar a tónica do amor, naturalmente sensato e saudavelmente descontraído, sem necessidade de recurso a fórmulas científicas; cuidado, no entanto, com o “excesso de liberalismo”, alertaria Spock, em 1957, uma vez que quem educa não pode demonstrar nunca falta de firmeza nem sequer manifestar indecisão.

            Todas estas notáveis transformações progressivas, estas evoluções positivas, na forma de encarar, dialecticamente, os filhos dos homens, apontam para o conceito de transicionalidade. Ora, Winnicott, enquanto profissional conhecedor, dedicado, empenhado e atento, no que toca à problemática infantil, para além de todo o seu protagonismo, criou e desenvolveu o conceito de “espaço transicional”, como sendo a distância potencial verificada entre a mãe e o bebé, na medida da aquisição consciente da integridade corporal deste e da consequente escolha objectal tranquila; a criança deixou de integrar o objecto materno, mas este deve estar sempre presente vinculativamente.

            Crescer é difícil e doloroso, logo a manutenção desse “espaço transicional” permite ao bebé, aliada a outros recursos ou “objectos transicionais”, como a fralda, a ponta do lençol ou a chupeta, vivências criativas saudáveis em extensão transformadora com interacções intersubjectivas conseguidas, a caminho da construção do seu universo simbólico. Se, pelo contrário, a criança sentir dificuldades na gestão vivencial criativa desse espaço virtual, ficará comprometido o seu crescimento mental, a liberdade e a autonomia, sobrevindo a estagnação, a fixação, devido à insuportável ausência do objecto... É que só o culto do amor comedido, atento e criativo, entre a mãe e o bebé, tem o dom de curar e fazer desabrochar.


Sem comentários:

Enviar um comentário