quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

RELAÇÕES ARMADILHADAS

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As relações humanas estão repletas de interacções problemáticas, sejam elas meramente disfuncionais, isto é, arredias, conflituosas, chantagistas, persecutórias ou, então, calculadamente cínicas, mordazes, arrogantes, desgastantes. A Convergência dos Afectos (temática já abordada neste blogue), no entanto, também vai sendo possível, desde que se reúnam as condições necessárias e suficientes para o efeito.

Na obra Notes on Some Schizoid Mechanisms (1952), Melanie Klein faz-nos compreender por que razão somos, por vezes, alvo do mau feitio do outro – Identificação Projectiva: esse mau self incide em nós, por evacuação, ficando aí alojado... nós, que para o outro (sujeito) não somos mais do que simples objectos relacionais onde facilmente são projectados os conteúdos nefastos e insuportáveis da sua emocionalidade delirante.

A mesma autora, em 1955, escreveu On Identification, revelando a segunda face desta mesma moeda, o que vale por dizer que a Identificação Projectiva pode ser também comunicatica, empática e apaziguadora se se verificar num contexto de envolvência salutar e harmonia.

No ano de 1962, Wilfred Rupert Bion, na obra Learning from Experience, desenvolve a noção de continente-conteúdo, firmando-se nos ensinamentos de Klein. Simplificando: tudo quanto nos aborrece, desespera ou enlouquece, da mesma forma que tudo quanto nos encanta, seduz ou derrete cabem, enquanto conteúdos conceptuais, na Identificação Projectiva que é passível de ser alojada num continente. Klein referira antes a capacidade do bom seio materno ser susceptível de, por identificação projectiva, receber e transformar os medos e misérias infantis, para que estes fossem depois removidos, reintrojectados e bem tolerados pelo bebé.

Se recordarmos o escrito a que demos o título “A Solidão e o Vazio Afectivos”, o fenómeno da Identificação Projectiva operou na criatura em causa os seus manifestos estragos, porque reflecte “atribuições encadeadas, nas quais o filho permanece cativo da economia defensiva parental”, podendo ainda o descendente ser transformado “numa extensão narcísica do self parental, ou, visando ainda perpetuar a estagnação do passado relacional parental (avós) internalizado pelos pais (Zinner & Shapiro cit. por Fleming 2004, p.65)... Tudo isto é muito mau!



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