domingo, 30 de abril de 2017

LUTA DE LUTOS



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      Alinharemos apenas algumas ideias subsidiárias, sobre a matéria em epígrafe, na tentativa de clarificar tão ingrata temática -- os lutos a que o ser humano está sujeito, na sequência de certas circunstâncias inevitáveis do quotidiano: a orfandade inopinada de uma criança; os efeitos de um divórcio; a perda do ser amado; o falecimento de um ente querido, entre outras situações.

       John Bowlby (1907-1990) desenvolveu um importante estudo sobre o vínculo, extraordinariamente subtil, mas simultaneamente profundo, que liga, desde o útero, mãe e filho. Se algo os separar, abrupta e demoradamente, aquando do reencontro a criança encarará a mãe como se de uma desconhecida se tratasse; Bowlby, face ao exposto, afirma que a dor mental provocada acaba por determinar a restrição e apagamento do comportamento inato de vinculação. A criança reagirá, rigidamente, ostentando auto-suficiência e autonomia.

       Embora a criança, caso venha a beneficiar dos cuidados coerentes da mãe, possa reabilitar o vínculo pré-existente, com os adultos as coisas são muito mais complexas. Aqui, o processo de luto inicia-se por uma espécie de atordoamento, isto é, a pessoa não se dá por achada e reage como se nada fosse, reagindo doentiamente como se o luto não tivesse acontecido.

        O segundo passo reactivo prende-se com a saudade, corrosiva, associada a uma tristeza deprimente e a uma cólera exasperada. O indivíduo vítima do luto alimenta uma postura ambivalente, ou seja, tão depressa aceita a perda como se agarra à representação mágica-omnipotente do regresso do falecido, explicado por meros indícios ou sinais interpretados pateticamente.

      Esta saudade dilacerante, mesclada de revolta, segundo Bowlby, assume a forma de perturbação crónica com tendência depressiva, uma vez que que a pessoa se encontra a braços com uma total desorientação, caracterizada pela constatação da irreversibilidade da perda, sem deixar de procurar quem já não é.

     Por fim, o enlutado sente-se completamente perdido, vazio, abandonado. Se a depressão for superada, o luto tem lugar e processa-se no sentido da reorganização da vida do indivíduo, da aceitação do factos ocorridos; reformulam-se as representações internas, ultrapassa-se paulatinamente a tristeza e enceta-se, na medida do possível, a vida de todos os dias. Quando a depressão prevalece, o luto pode ser seriamente impedido.  

À BEIRA-SER


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Pasmo no sonho vâo de te sorrir
intangível desejo de te ter
íntima loucura por perecer
na tal rotunda senda do devir

Na busca desse alguém por quem sentir
Sossego de Pessoa À BEIRA-SER
não tenho mais ninguém a quem valer
porque tenho chorado sempre a rir

Meu seio ausente - crepuscular
vago desejo no fogo que lavra
mãe Primavera no sopro do vento

Brilho sublime na cor da palavra
castelo de cartas - encantamento
amada memória a de te amar

domingo, 16 de abril de 2017

EDUCAR NÃO É CRUZAR OS BRAÇOS



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          Tão grave como a impreparação, o desequlíbrio, a imaturidade educacionais ou outros tenebrosos desconchavos ocasionais e arbitrários, é o simples cruzar de braços, a indiferença, o laissez faire, laissez passer. Ambos os figurinos têm o condão, não só de reactivar os instintos primários da criança, mas também o de adormecer a consciência, impedindo a educação cultural, as aprendizagens lectivas e a sociabilidade. Importa, portanto, educar na responsabilização, ligando as experiências do quotidiano à natural necessidade de descoberta do novo ser, tendo em conta as consequências dos seus actos, sem comprometer a comunidade.

         Para além do conveniente exemplo de excelência comportamental que o adulto deve sempre garantir, quando junto das crianças, deve ainda ser capaz de orientar estas, circunstancialmente, para tarefas lúdicas susceptíveis de redireccionar as tendências pulsionais indesejáveis. Desta maneira, caminha-se para a formação alicerçado do Eu e para a construção da consciência, da alegria e da auto-estima, através da satisfação pelos resultados obtidos. O self-respect e o amor ao próximo devem ser o suporte da Educação. Segundo Dostoiewsky, os castigos e as humilhações tornam o homem infeliz e persecutor, levando-o à insatisfação e a uma redutora espiral de vinganças e a actos inconscientes de perda de controlo e represálias. É assim que se disseminam as epidemias mentais.

         Está muito enganado quem possa pensar, hoje em dia, que a liberdade dispensa a disciplina. A criança necessita de balizas, de regras, de orientação, de uma educação construtiva; precisa de ouvir NÃO, tantas vezes quantas as que a situação o exigir, mas, a partir de pais ou educadores que não se permitam a exteriorização de conflitos pessoais nem de afectos inconscientes, ou seja, não podem perder o domínio de si próprios. Isto é fundamental, porque mexe com a estrutura afectiva da criança; esta identifica-se com o progenitor, e depois com o educador, professor, mestre, etc., o que interfere, especularmente, na construção do seu Eu, para o bem ou para o mal... no âmbito da relação de objecto (líbido objectal).

         Com o passar do tempo, e vencidas as resistências que o autoritarismo balofo ou o cruzar de braços apático potenciam – fobia das responsabilidades, diluição moral, deformação de carácter, acabrunhamento do self, perda da consciência e da dignidade pessoal, o indivíduo reagirá melhor à necessidade de integração social cooperante e, através da maturação erótica, desenvolverá a capacidade de amar, o que significa considerar a Liberdade do outro na gestão da vida dual comum. Este passo exige capacidade altruísta, perseverança, conhecimento da realidade e das suas próprias limitações individuais.

         Educar no Amor cria relações sãs; Cruzar os Braços potencia interacções doentias. Estas, de teor parasitário, não permitem a penetrabilidade emocional nem a recepção pelo objecto. Neste caso, os indivíduos elegem a promiscuidade multitudinária para iludir a falta de identidade pessoal e a ausênsia de sentimentos próprios. A solidão torna-se perturbadora e o sujeito, imaturo, desprovido de vontade e desinserido, perante o apagamento do Self, age pelos instintos, pelas pulsões primárias. Assim, através de atitudes inconscientemente desconcertantes, busca o reconhecimento dos pares, a coberto da grande massa grupal envolvente, enquanto compensação delirante para o seu sofrimento mental e para o seu efectivo isolamento afectivo.


         “A vida sem valores sublimes perde toda a significação, a totalidade do seu sentido, a inefável pulsão do sonho, e vai cavando à sua volta o vazio identitário que impede a afirmação da sensibilidade afectiva amadurecida, coarctando a transcendência de um simbolismo libertador. Para o ser humano, vergado que está sob o peso sombrio de uma existência angustiante e castigadora, que o progresso potencia e agrava, mais importante do que colocar questões é agir com determinação (viver) de forma a satisfazer as exigências mais intrísecas da interioridade do indivíduo: nobreza de carácter, altruísmo e totalidade, como, de resto, aconteceu na Helenidade” (Santos, 2015).

O CASTIGO EDUCATIVO



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          No dia 15 de Março de 1994, vimos o nosso trabalho – Educar no Amor – ser publicado na revista do Ministério da Educação – Notícias da Educação. Adivinhava-se já, na sequência do refazer do nosso tecido social e do tipo de coesão que o animava, por força de uma renovada realidade histórico-filosófica de cariz democrático, uma gradual alteração das mentalidades, tendente a pôr de lado velhos preconceitos e conceitos, protagonismos e práticas ultrapassados, mormente no âmbito da massificação do ensino.

         Sabíamos que seria assim, mas alertámos para a importância de Educar no Amor, para que as coisas, neste campo, não fugissem, sobremaneira, ao controlo dos pais, caso a Educação dos rebentos fosse deixada ao acaso. A escola só vem depois. A tarefa dos progenitores exige um esforço redobrado, já que no seu tempo de crianças e jovens foram educados de forma deficiente, muitas vezes brutal, sado-masoquista, aniquiladora ou enfática, com castigos corporais violentos, tendo sido psicologicamente castrados, paralisados, recalcados ou tornados agressivos e agressores. Tudo isto, quer se queira, quer não, formatou a sua estrutura caracterial.

          Segundo tem sido referido por inúmeros autores consagrados, historicamente, o castigo educativo foi beber inspiração na arcaica sede de vingança, no primitivo exercício compensatório de represálias, na ancestral necessidade histérica de cultivar ritos mágicos sacramentais, enfim, a partir da hostilidade e da cólera. O castigo de que falamos não se pauta pela razão, mas sim pela afectividade doentia, de tonalidade inconsciente, que embriaga o educador e o leva a procurar um bode expiatório que possa ser humilhado, visando aplacar a ira do “ofendido”. Esta prática danifica o instinto de conservação e a auto-estima infantis. A mesma configura ainda um tipo de comportamento que reedita hoje, não obstante a realidade epistemológica actual, a lógica dos povos primitivos, já que os mecanismos inconscientes que os motivam são intemporais.

         Tratando-se de uma matéria tão densa, complexa e profunda como o é a do castigo educativo, passaremos a focar agora, no enquadramento do presente escrito, um ou outro aspecto de maior importância, relêvo e recorrência no quotidiano das famílias, aquando do primeiro esboço (entre os dois, três anos e os cinco) de afirmação pessoal da criança – delimitação do Eu e início de integração social, através de uma forte oposição, teimosia (personalidade impositiva); este fenómeno, conforme a reacção parental – justa ou persecutória –, pode gerar uma terrível angústia, mais teimosia e grande ambivalência mesclada de ódio mal contido. Pais existem que chegam ao ponto de recriar espessos dramalhões pseudo-educativos onde impera a solenidade sado-masoquista, pateticamente mórbida, fatal para a sensibilidade e a consciência da criança, porque induz o esboroar da personalidade e o amestramento lacaio dos comportamentos, afastando o ser da dignidade humana.

            Estas práticas vão deteriorando a formação do carácter, da vontade, da consciência, ao mesmo tempo que precipitam, num clima crescente de angústia insuportável, a síndroma da culpabilidade e do abandono moral, da insegurança e da perda de amor-próprio. Ao invés, pelo jogo e pela actividade orientada pelo adulto equilibrado, as pulsões instintivas podem ser convertidas saudavelmente, também na consideração e no respeito dos que com a criança interagem. Importa não esquecer a complexidade da personalidade psíquica infantil.


         E concluímos com um alerta urgente, antes de passar ao segundo escrito sobre a presente temática: face a um ser em formação, a falta de respeito, a ignorância e a estupidez de progenitores ou educadores mentalmente infectados podem levá-lo à autodestruição ou à destruição dos outros, pelo acumular de tensões, de angústias e de medos que podem desembocar, eventualmente no suicídio ou noutro tipo de tragédias deploráveis (violência doméstica, maus-tratos, perseguições, terror “educativo”, desamor, ciúmes, indiferença, usurpação de direitos relacionais, chantagem afectiva, etc.). Mas, lembrem-se sempre: Educar (também) não é Cruzar os Braços.