sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

VERDADE, CORRECÇÃO E SENTIDO



Imagem do Google


            – (...) Oh, fulano, por que razão é que o meu amigo continua a escrever com a grafia errada?! Então, ignora o Acordo?
            Quem assim falava era um amigo de longa data, acabado de chegar à confeitaria onde nos encontrávamos a bebericar um chá de cidreira e a degustar um bolo de arroz. Isto foi já há cerca de um ano, depois de uma perseverante-gratificante sessão de ginásio. Por amizade e sentido didáctico-pedagógico, lá explicámos ao cavalheiro o essencial da questão:

            Aquilo a que se chama Acordo Ortográfico (1990), nem é ortográfico nem é acordo. Em primeiro lugar, porque, neste caso concreto, o acordo é humanamente impraticável, logo, tanto quanto julgamos saber, nenhum dos restantes parceiros (CPLP-Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa), possui meios para concretizar o mesmo; em segundo, porque a palavra ortografia significa – escrita correcta, e todos sabemos que essa correcção radica na etimologia das palavras, ou seja, na origem, na verdade das mesmas, e não no arbítrio de certos políticos (alegadamente) ignorantes, narcisistas  e caprichosos.

– Portanto, meu caro, julgo que me fiz entender quanto à Verdade e à Correcção da minha grafia e à ausência de Sentido do “Acordo”. Ou não será assim?
– Pois muito me conta!... Olhe, que nunca tinha pensado nisso!...
-- É justamente o que acontece (alegadamente) com certos deputados; não pensam! Olhe, se tiver tempo, procure no blogue ANGULUS RIDET o escrito “Sobre o Absurdo Ortográfico”, para não estar aqui a maçá-lo mais sobre o assunto. E agora fale-me do seu refúgio de Verão, em Vilar de Mouros!...


            E continuámos a conversação, versando assuntos de somenos importância, servindo-nos dessa extraordinária faculdade, inerente apenas à espécie humana, que é a linguagem. É através da linguagem que se dá existência às coisas, quer dizer, a linguagem é a forma constitutiva do Homem, e, segundo Jaques Lacan, também “o inconsciente está estruturado como uma linguagem”, daí, certas atitudes humanas que ficam sempre por explicar. De qualquer maneira, as tais coisas nomeadas devem possuir sempre uma imagem mental conceptual definida, cujo referente se forme através da correcta verdade significante, detentora do maior peso e clarividência possíveis.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

RELAÇÕES ARMADILHADAS

Imagem do Google


As relações humanas estão repletas de interacções problemáticas, sejam elas meramente disfuncionais, isto é, arredias, conflituosas, chantagistas, persecutórias ou, então, calculadamente cínicas, mordazes, arrogantes, desgastantes. A Convergência dos Afectos (temática já abordada neste blogue), no entanto, também vai sendo possível, desde que se reúnam as condições necessárias e suficientes para o efeito.

Na obra Notes on Some Schizoid Mechanisms (1952), Melanie Klein faz-nos compreender por que razão somos, por vezes, alvo do mau feitio do outro – Identificação Projectiva: esse mau self incide em nós, por evacuação, ficando aí alojado... nós, que para o outro (sujeito) não somos mais do que simples objectos relacionais onde facilmente são projectados os conteúdos nefastos e insuportáveis da sua emocionalidade delirante.

A mesma autora, em 1955, escreveu On Identification, revelando a segunda face desta mesma moeda, o que vale por dizer que a Identificação Projectiva pode ser também comunicatica, empática e apaziguadora se se verificar num contexto de envolvência salutar e harmonia.

No ano de 1962, Wilfred Rupert Bion, na obra Learning from Experience, desenvolve a noção de continente-conteúdo, firmando-se nos ensinamentos de Klein. Simplificando: tudo quanto nos aborrece, desespera ou enlouquece, da mesma forma que tudo quanto nos encanta, seduz ou derrete cabem, enquanto conteúdos conceptuais, na Identificação Projectiva que é passível de ser alojada num continente. Klein referira antes a capacidade do bom seio materno ser susceptível de, por identificação projectiva, receber e transformar os medos e misérias infantis, para que estes fossem depois removidos, reintrojectados e bem tolerados pelo bebé.

Se recordarmos o escrito a que demos o título “A Solidão e o Vazio Afectivos”, o fenómeno da Identificação Projectiva operou na criatura em causa os seus manifestos estragos, porque reflecte “atribuições encadeadas, nas quais o filho permanece cativo da economia defensiva parental”, podendo ainda o descendente ser transformado “numa extensão narcísica do self parental, ou, visando ainda perpetuar a estagnação do passado relacional parental (avós) internalizado pelos pais (Zinner & Shapiro cit. por Fleming 2004, p.65)... Tudo isto é muito mau!



terça-feira, 2 de janeiro de 2018

LUGAR AO SONHO E À FANTASIA

Imagem do Google


Lemos, algures, num "outdoor", na margem de uma auto-estrada: "Nove em cada dez crianças adormecem sem terem quem lhes conte uma história."

Isto dá que pensar... No dizer de Pierre Mabille (1904-1952), "o Maravilhoso exprime a necessidade de ultrapassar os limites impostos pela nossa estrutura, de atingir uma maior beleza, um maior poder, uma maior duração. O Maravilhoso visa superar as barreiras do espaço e do tempo; pretende destruir todos os obstáculos. Ele é a luta da Liberdade e é contra tudo o que a reduz, destrói ou mutila."

"(...) O Maravilhoso aproveita-se dos pontos de fraqueza da inteligência organizadora, como o fogo de um vulcão se insinua por entre as falhas da rocha; ele ilumina os celeiros da infância, é a estranha lucidez do delírio, é a luz do sonho, a claridade verde da paixão..."

Depois de devidamente analisada esta deliciosa explanação de Mabille, sobre o Maravilhoso, fácil é concluir o quanto arredados têm andado os adultos das necessidades mais prementes das crianças, neste particular, quer por ignorância quer por desleixo relacional; neste âmbito, também as escolas pecam por omissão.

Hoje, as famílias são cada vez mais disfuncionais, devido à pressão social e às exigências de uma economia madrasta. Não existe já (ou escasseia) a doce envolvência das famílias alargadas -- onde o quotidiano era pautado pela presença atenta dos avós, sempre adorados e respeitados. Estes mimavam os netos com imensas histórias, lenga-lengas, cantilenas e pequenos contos.

Que resta hoje às crianças, para além das aberrações virtuais, que lhes permita encetar a fabulosa, apaziguadora e edificante viagem pela aventura do sonho, do maravilhoso, rumo ao incrível universo do seu próprio imaginário?! Como conseguirão elas diluir e elaborar os seus fantasmas existenciais?!













sábado, 30 de dezembro de 2017

A SOLIDÃO E O VAZIO AFECTIVOS



Imagem do Google

    No passado dia 25 de Dezembro, isto é, no dia de Natal, a escassos minutos da hora de jantar, junto ao aconchego da família e de alguns amigos, gozávamos o calor da lareira onde crepitavam algumas achas de azinho. Entretanto, no remanso descontraído da conversa, escutámos de um dos presentes (adulto) uma curiosa confidência: "Nunca consegui concretizar os meus projectos de vida, porque não consigo deixar as pessoas de quem gosto."...

   Escusado será dizer que conhecemos muitas pessoas que enfermam deste mesmo mal e que, no dia-a-dia, não fazem mais do que se tentar enganar. É que, na prática, esta gente não gosta de ninguém nem muito menos de si própria. Trata-se da vulgar síndroma da imaturidade que consegue vencer décadas e, na maioria dos casos, acompanha estas pobres almas desamparadas até à cova.

       Já aqui escrevemos sobre o amadurecimento do indivíduo, que não acompanha necessariamente o devir cronológico (este é inexorável), nem a evolução mental, fisiológica ou afectiva. Qualquer criatura para crescer harmonicamente não pode ser absorvida pelos pais devido aos seus pavores inconscientes, às suas angústias debilitantes e deprimentes, o mesmo vale por dizer, ao seu infantilismo redutor e castrante. É este exactamente o caso da pessoa que nos fez a atrás aludida confidência.

       Atrevemo-nos a dizer, depois de termos opinado, há tempos, sobre as famílias numerosas, que há famílias que não merecem os filhos que tiveram. Reparem: o grau de harmonia do casal, que muito legitimamente pretende deixar descendência, é fulcral no quadro dos afectos de atracção (Adler). É, essencialmente neste âmbito que se vai gerando o clima familiar, sempre alicerçado pela interacção inconsciente do pai e da mãe e de todo o tipo de experiências que vão protagonizando entre si, quer ao nível sexual, como familiar, social ou de outro tipo.

   Uma individuação bem definida; uma identidade harmoniosamente estruturada; uma autonomia perfeitamente construída, no sentido da emancipação segura e responsável; um self consciente e orientador podem, afinal, constituir mais-valias gratificantes que garantam às crianças nascidas de pais adultos, dotados desse tipo de caracteriologia, uma educação em liberdade, evitando que as sensibilidades mórbidas dos adultos mal formados possam intoxicar a vulnerabilidade infantil.

       





quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

HEMISFÉRIOS CEREBRAIS E DOMINÂNCIAS



Imagem do Google

            
     Nos cérebros dos homens e das mulheres existem diferenças biológicas relativas que, naturalmente, determinam reacções, atitudes e comportamentos individuais e relacionais (familiares, conjugais e sociais) diversos. As mulheres mostram-se mais envolventes, abrangentes e extensivas nas suas preocupações; estas são características de que a Natureza as dotou para protecção e defesa das “crias”, durante as idades mais tenras. Atente-se, já agora, e a talho de foice, no ângulo de abertura das articulações que ligam os ante-braços e braços das mulheres (superior a 180º), para mais facilmente abarcarem os filhos pequenos. Esta é uma realidade antropologicamente reconhecida.

     Já os homens são mais analíticos, intensivos, calculistas, focados e menos propensos à rotina; isto, segundo os neurologistas que aliam este tipo de aspectos à dominância do hemisfério cerebral esquerdo. Nas mulheres, portanto, é o hemisfério cerebral direito a ditar as regras. Sendo assim, elas, pelo contrário, são mais conciliadoras e receptivas, mais pacientes e sociais (socializadoras), mais criativas e românticas... Sim, ainda hoje, e ainda bem!

     Ainda que o hemisfério esquerdo responda pela estrutura linguística, pela lógica, pelo cálculo matemático e pela gestão do tempo (tal como o entendemos), orquestrado este a partir dos movimentos de rotação e translacção do planeta Terra, enfim... “Todo o tempo é eternidade”, afirmou T. S. Eliot (1888-1965) -- Prémio Nobel da Literatura em 1948; mesmo que o hemisfério direito influencie a capacidade de síntese, a avaliação empírica, a aptidão para sonhar, na prática, porém, é esta diversidade que concorre para o colorido refrescante e complementar das relações entre homens e mulheres...

      ... Não perdendo de vista, nunca, que, em cada um de nós, mulheres ou homens, homens ou mulheres, estão presentes, necessariamente, ambos os hemisférios cerebrais, sendo a dominância exacta de cada um deles impossível de medir, mas passível de unir.


            NOTA: A todos os leitores do presente blogue – ANGULUS RIDET – http://maranduvaline.blogspot.com, faço chegar os meus votos sinceros de um Santo e genuíno Natal, com muita paz e amor.

AMAR É LIBERTAR



Imagem do Google


     
       Vivemos, hoje, na Europa, em países – uns mais, outros menos – elaboradamente democráticos; preocupadamente sociais; economicamente racionais e contidos... Enfim, arduamente civilizados. Mas, como tudo isto contrasta com o resto do mundo, temos sido, de forma progressiva – ou melhor: galopante –, nos mais recentes anos, objecto do desejo – não sei se obnubilado, se indefinido; se desesperado, se de sobrevivência, dos povos e das gentes que, em outras paragens próximas/distantes se vão agarrando a um certo imaginário simbólico inconsciente, representado pelo nosso continente, face à rudeza brutal e sanguinária de facções que nas suas terras os perseguem, torturam, escravizam e matam. Assim vai o mundo!

     Trata-se, portanto, não da cultura da liberdade e do amor; da tolerância e da fraternidade; da solidariedade e do altruísmo; mas antes, isso sim: do ódio activamente persecutório; do sadismo mais abjecto; da intolerância mais sinistramente destruidora. Será que é este o preço que temos de pagar por, ao contrário dos restantes animais, sermos capazes de contrariar os instintos e optar pela racionalidade que a linguagem viria a potenciar ainda mais?! Estranho paradoxo, este, não acham?

       Viktor Frankl (1905-1997) é um conhecido psicanalista que, por ser judeu (austríaco), sofreu na carne, em 1942/43, com a demais família, a violência nazi, em Theresienstadt e, em 1944, em Auschwitz, tendo sobrevivido ao Holocausto, apenas ele e a irmã Stella. Retirou daí ilações, e desenvolveu a teoria do impulso vital do indivíduo para a criação de um sentido para prosseguir a vida, mesmo face à mais negra adversidade. Curiosamente, experimentámos este mesmo sentimento emocional, nos idos de 1972 e 1973, na mata cerrada dos recônditos Dembos (Angola), em contexto de guerrilha.

        Concordamos com Viktor Frankl neste particular, mas não acompanhamos o seu raciocínio quando este cientista afirma que nos nossos dias a sociedade já não é sexualmente frustrada (afecção disruptiva de afectos), ao invés do que defendeu Freud (1856-1930); ou que, conforme sustentava Adler (1870-1937), já não existe o sentimento de inferioridade, por parte das pessoas... Que bom que seria, se assim fosse! A que se deve, então, o tráfico humano e a escravatura sexual nos dias que correm? E as constantes violações? E a violência doméstica? E a alienação parental? E o “bullying” nas escolas e nas empresas? Em todas estas e outras situações, em qualquer continente ou sociedade, e, quer por força da frustração sexual, quer ainda devido ao sentimento de inferioridade (disfunção identitária que pode promover o abuso de poder, por exemplo), quer tendo em conta o vazio existencial e a falta de sentido na vida – são tudo realidades sistémicas e parasitárias –, existem milhões de pessoas que sofrem diariamente. A neurose atrai a neurose. A psicose pode matar ou suicidar. É que só o amor é libertador, como pregou São Paulo aos Coríntios.

        Todavia, devido à tensão brutal a que estão sujeitas as pessoas, tendo em conta a organização da sociedade, nomeadamente no que respeita à indução familiar e educativa e aos posteriores condicionamentos dos adolescentes e jovens (Robert Ollendorff), leia-se repressão (sexual), frustração e neurose – estas radicam no borbulhar larval do desejo recalcado –, continua a fazer sentido a tese de Freud e de Adler (e a de Frankl, também), uma vez que a estrutura social, política, económica e empresarial se assemelha a um tenebroso espartilho, redutor e castrante da energia dos impulsos.

     Freud refere esta força, esta tonacidade anímica genérica, como a “catexe” que ocupa o conteúdo psíquico, cujo aumento do desejo desencadeia a repressão e a proximidade do inconsciente; quando esta energia se torna mais forte ainda e incide sobre certas pessoas ou objectos – “catexe do objecto”, pode determinar identificação (ambivalente, embora) com aqueles. É curioso notar que Adler tenha optado por designar o mesmíssimo fenómeno por fixação, e Jung (1875-1961) lhe tenha dado o nome de obsessão. Na prática, trata-se de mecanismos esquizóides (Melanie Klein [1882-1960]), cuja exacerbação redunda em anomalias psíquicas, estados obsessivos, caprichos e ideias fixas que degeneram em psicoses. Infere-se daqui que a força primária do desejo ignora o tempo e a realidade exterior, porque quanto mais potenciada é, mais facilmente é captada pelo inconsciente.

            

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

RIA DE AVEIRO RIA





Imagem do Google


Ria de Aveiro Ria
meu poema vivo movente
ou discreta melodia comovente


Ria de Aveiro Ria
derreada Ria
ou oscilante desejo
jubilado anseio ou jazida
refulgente sonho argentino
plúmbeo lençol agreste
metamorfose ou miragem
abandonada às marés

Minha Ria meu celeiro
cintilações de memória
sementeira ecologia
meu sentido emocional
só no âmago do teu seio
mora o tempo uno inteiro
por sentir de novo o sol

Minha Ria meu poema
sê apenas como és
puro anseio absoluto
nos meandros da lembrança
meu arrepio fremente
traço ardente especular
metamorfose ou miragem
lodaçal lirismo lúdico
abandonado às marés