domingo, 16 de abril de 2017

EDUCAR NÃO É CRUZAR OS BRAÇOS



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          Tão grave como a impreparação, o desequlíbrio, a imaturidade educacionais ou outros tenebrosos desconchavos ocasionais e arbitrários, é o simples cruzar de braços, a indiferença, o laissez faire, laissez passer. Ambos os figurinos têm o condão, não só de reactivar os instintos primários da criança, mas também o de adormecer a consciência, impedindo a educação cultural, as aprendizagens lectivas e a sociabilidade. Importa, portanto, educar na responsabilização, ligando as experiências do quotidiano à natural necessidade de descoberta do novo ser, tendo em conta as consequências dos seus actos, sem comprometer a comunidade.

         Para além do conveniente exemplo de excelência comportamental que o adulto deve sempre garantir, quando junto das crianças, deve ainda ser capaz de orientar estas, circunstancialmente, para tarefas lúdicas susceptíveis de redireccionar as tendências pulsionais indesejáveis. Desta maneira, caminha-se para a formação alicerçado do Eu e para a construção da consciência, da alegria e da auto-estima, através da satisfação pelos resultados obtidos. O self-respect e o amor ao próximo devem ser o suporte da Educação. Segundo Dostoiewsky, os castigos e as humilhações tornam o homem infeliz e persecutor, levando-o à insatisfação e a uma redutora espiral de vinganças e a actos inconscientes de perda de controlo e represálias. É assim que se disseminam as epidemias mentais.

         Está muito enganado quem possa pensar, hoje em dia, que a liberdade dispensa a disciplina. A criança necessita de balizas, de regras, de orientação, de uma educação construtiva; precisa de ouvir NÃO, tantas vezes quantas as que a situação o exigir, mas, a partir de pais ou educadores que não se permitam a exteriorização de conflitos pessoais nem de afectos inconscientes, ou seja, não podem perder o domínio de si próprios. Isto é fundamental, porque mexe com a estrutura afectiva da criança; esta identifica-se com o progenitor, e depois com o educador, professor, mestre, etc., o que interfere, especularmente, na construção do seu Eu, para o bem ou para o mal... no âmbito da relação de objecto (líbido objectal).

         Com o passar do tempo, e vencidas as resistências que o autoritarismo balofo ou o cruzar de braços apático potenciam – fobia das responsabilidades, diluição moral, deformação de carácter, acabrunhamento do self, perda da consciência e da dignidade pessoal, o indivíduo reagirá melhor à necessidade de integração social cooperante e, através da maturação erótica, desenvolverá a capacidade de amar, o que significa considerar a Liberdade do outro na gestão da vida dual comum. Este passo exige capacidade altruísta, perseverança, conhecimento da realidade e das suas próprias limitações individuais.

         Educar no Amor cria relações sãs; Cruzar os Braços potencia interacções doentias. Estas, de teor parasitário, não permitem a penetrabilidade emocional nem a recepção pelo objecto. Neste caso, os indivíduos elegem a promiscuidade multitudinária para iludir a falta de identidade pessoal e a ausênsia de sentimentos próprios. A solidão torna-se perturbadora e o sujeito, imaturo, desprovido de vontade e desinserido, perante o apagamento do Self, age pelos instintos, pelas pulsões primárias. Assim, através de atitudes inconscientemente desconcertantes, busca o reconhecimento dos pares, a coberto da grande massa grupal envolvente, enquanto compensação delirante para o seu sofrimento mental e para o seu efectivo isolamento afectivo.


         “A vida sem valores sublimes perde toda a significação, a totalidade do seu sentido, a inefável pulsão do sonho, e vai cavando à sua volta o vazio identitário que impede a afirmação da sensibilidade afectiva amadurecida, coarctando a transcendência de um simbolismo libertador. Para o ser humano, vergado que está sob o peso sombrio de uma existência angustiante e castigadora, que o progresso potencia e agrava, mais importante do que colocar questões é agir com determinação (viver) de forma a satisfazer as exigências mais intrísecas da interioridade do indivíduo: nobreza de carácter, altruísmo e totalidade, como, de resto, aconteceu na Helenidade” (Santos, 2015).

O CASTIGO EDUCATIVO



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          No dia 15 de Março de 1994, vimos o nosso trabalho – Educar no Amor – ser publicado na revista do Ministério da Educação – Notícias da Educação. Adivinhava-se já, na sequência do refazer do nosso tecido social e do tipo de coesão que o animava, por força de uma renovada realidade histórico-filosófica de cariz democrático, uma gradual alteração das mentalidades, tendente a pôr de lado velhos preconceitos e conceitos, protagonismos e práticas ultrapassados, mormente no âmbito da massificação do ensino.

         Sabíamos que seria assim, mas alertámos para a importância de Educar no Amor, para que as coisas, neste campo, não fugissem, sobremaneira, ao controlo dos pais, caso a Educação dos rebentos fosse deixada ao acaso. A escola só vem depois. A tarefa dos progenitores exige um esforço redobrado, já que no seu tempo de crianças e jovens foram educados de forma deficiente, muitas vezes brutal, sado-masoquista, aniquiladora ou enfática, com castigos corporais violentos, tendo sido psicologicamente castrados, paralisados, recalcados ou tornados agressivos e agressores. Tudo isto, quer se queira, quer não, formatou a sua estrutura caracterial.

          Segundo tem sido referido por inúmeros autores consagrados, historicamente, o castigo educativo foi beber inspiração na arcaica sede de vingança, no primitivo exercício compensatório de represálias, na ancestral necessidade histérica de cultivar ritos mágicos sacramentais, enfim, a partir da hostilidade e da cólera. O castigo de que falamos não se pauta pela razão, mas sim pela afectividade doentia, de tonalidade inconsciente, que embriaga o educador e o leva a procurar um bode expiatório que possa ser humilhado, visando aplacar a ira do “ofendido”. Esta prática danifica o instinto de conservação e a auto-estima infantis. A mesma configura ainda um tipo de comportamento que reedita hoje, não obstante a realidade epistemológica actual, a lógica dos povos primitivos, já que os mecanismos inconscientes que os motivam são intemporais.

         Tratando-se de uma matéria tão densa, complexa e profunda como o é a do castigo educativo, passaremos a focar agora, no enquadramento do presente escrito, um ou outro aspecto de maior importância, relêvo e recorrência no quotidiano das famílias, aquando do primeiro esboço (entre os dois, três anos e os cinco) de afirmação pessoal da criança – delimitação do Eu e início de integração social, através de uma forte oposição, teimosia (personalidade impositiva); este fenómeno, conforme a reacção parental – justa ou persecutória –, pode gerar uma terrível angústia, mais teimosia e grande ambivalência mesclada de ódio mal contido. Pais existem que chegam ao ponto de recriar espessos dramalhões pseudo-educativos onde impera a solenidade sado-masoquista, pateticamente mórbida, fatal para a sensibilidade e a consciência da criança, porque induz o esboroar da personalidade e o amestramento lacaio dos comportamentos, afastando o ser da dignidade humana.

            Estas práticas vão deteriorando a formação do carácter, da vontade, da consciência, ao mesmo tempo que precipitam, num clima crescente de angústia insuportável, a síndroma da culpabilidade e do abandono moral, da insegurança e da perda de amor-próprio. Ao invés, pelo jogo e pela actividade orientada pelo adulto equilibrado, as pulsões instintivas podem ser convertidas saudavelmente, também na consideração e no respeito dos que com a criança interagem. Importa não esquecer a complexidade da personalidade psíquica infantil.


         E concluímos com um alerta urgente, antes de passar ao segundo escrito sobre a presente temática: face a um ser em formação, a falta de respeito, a ignorância e a estupidez de progenitores ou educadores mentalmente infectados podem levá-lo à autodestruição ou à destruição dos outros, pelo acumular de tensões, de angústias e de medos que podem desembocar, eventualmente no suicídio ou noutro tipo de tragédias deploráveis (violência doméstica, maus-tratos, perseguições, terror “educativo”, desamor, ciúmes, indiferença, usurpação de direitos relacionais, chantagem afectiva, etc.). Mas, lembrem-se sempre: Educar (também) não é Cruzar os Braços.

sexta-feira, 24 de março de 2017

MULHERES E HOMENS



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          Neste mesmo Blogue, se não nos falha a memória, escrevemos, há já algum tempo, sobre a Educação integrada numa Ética Global, é claro, para efeitos de observância efectiva, visando, evidentemente, os seus resultados práticos, ao arrepio de tudo ou quase tudo o que não tem acontecido nesse âmbito tão necessário e estruturante da vida das pessoas e das comunidades.

          No final do referido escrito, juntámos uma nota que apontava para a urgência com que deve ser olhado e revisto o protagonismo da mulher em sociedade, sob todos os pontos de vista, tendencialmente anquilosantes e deploráveis: "(...) o papel da mulher na(s) sociedade(s), sobre o qual recaem mais expectativas, exigências e arbítrios; violências, perseguições e chantagens, sem que as coisas tenham mudado significativamente de feição. Nesta conformidade, a Educação, seja em que país for, deve ser capaz de agarrar todo este conjunto de valores culturais universais" (Educação e Ética Global), "rumo à promoção de uma tão necessária como, até aqui, arredia ética global."

          Por mera questão de coerência e, fundamentalmente, por motivos de consciência, tanto quanto nos tem sido dado observar, investigar, analisar, isto é, estudar, relativamente a um assunto de tão grande importância, mas, talvez, por isso mesmo, de tão polémica leitura, não é possível embarcar em ideias pré-concebidas, em máximas do senso-comum, em cultos de puro arbítrio modal, nem em conveniências seguidistas -- daquelas que têm tentado operar uma espécie de pensamento único global, pré-formatado, em nome de inconfessáveis desígnios. 

          O Homem e a Mulher são iguais, no que toca a direitos e a deveres, quanto mais não seja, na sociedade Ocidental, já que em certas culturas a situação dos géneros está sujeita a directrizes díspares, disfuncionais, que não levam em linha de conta as legítimas expectativas do género feminino... se é que estas chegam alguma vez a ter a oportunidade sequer de esboçar algum sinal de afirmação.

          Mas, falar de direitos e deveres iguais significa também o reconhecimento das especificidades fabulosas, extraordinárias, mágicas, gratificantes das diferenças: são precisamente estas que tornam a vida na Terra suportável: alguém escreveu que a vida do ser humano é insuportável e solitária, desde o nascimento até à morte, e é apenas no âmbito do amor que experimentámos a ilusão da companhia, do aconchego, da pertença. Nada mais certo.

A mulher é naturalmente feminina, sensual, sedutora e deve ser respeitada na sua dignidade pessoal sem que esses atributos possam ser explorados para fins degradantes. O homem é constitucionalmente viril, mais possante, e deve tirar partido dessas características para compreender, aceitar e proteger o seu par, em família. Logo, ambos os géneros devem respeitar-se mutuamente, sendo capazes de construir as suas vidas em harmonia, integrando as comunidades sociais de forma a viver o presente com sentido de responsabilidade, preparando o futuro profícua e tranquilamente, sem macular a honra e a dignidade de cada um e de todos.


                

        












quinta-feira, 23 de março de 2017

INCAPAZES DE AMAR?

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   Quer queiramos, quer não, o passado pesa substancialmente nos nossos comportamentos do quotidiano – muito mais o passado ancestral da humanidade, do que propriamente os nossos antecedentes familiares, ainda que a conjugação de ambos deva ser levada em conta, numa visão sistémica, de conjunto, dado que o todo é sempre mais importante e elucidativo do que a soma das partes, quando se trata de perceber o que representa, afinal, a sedimentação ancestral dinâmica resultante das vivências empíricas dos primeiros seres humanos, regidas maioritariamente por impulsos em detrimento da racionalidade ausente.

        A expressão da emocionalidade é carreada pelo impulso, mas, este, em sociedade, deve ser refreado, de acordo com o contexto familiar, social-civilizacional, de modo a não comprometer as interacções em presença, por atropelo das normas vigentes em determinada comunidade; a rígida fixação dos instintos e o carácter desviante do homem não podem ignorar os legítimas direitos e necessidades do outro, sob pena de sermos incapazes de amar.

        Ao contrário do que se possa pensar, nos nossos dias, ama-se cada vez menos e com pior qualidade: a sociedade do espectáculo, consumista, alienada, decadente, tecnológica e fria não pretende que a Educação faça o seu papel, e, por isso, tem conseguido perturbar emocionalmente as novas gerações, tornando-as mais inseguras e nervosas; mais deprimidas e fechadas; mais ensimesmadas, solitárias e violentas; mais alheias à disciplina e ao consenso; em suma, mais narcisistas, impulsivas e beligerantes.

       Grosso modo, convém referir o tronco cerebral, logo acima da espinal medula, como sendo a parte primitiva do cérebro humano; aquele é composto, de baixo para cima, pelo bolbo raquidiano, protuberância e formação reticular anterior, mesencéfalo (zona média cerebral) com diencéfalo – cérebro reptílico, regulador das funções vitais básicas, como nos répteis –; e córtex cingulado no topo envolvente – sistema límbico, onde se alocam os sentimentos ou afectos primários dos primeiros mamíferos. Toda a restante massa superior, de formação recente, constitui o neo-córtex – sede das funções cognitivo-afectivas superiores complexas, capazes de pensamento e linguagem e de diferenciar emoções. (Goleman, 2006; Hell, 2009; Damásio, 2013; Mlodinow, 2014).

       Segundo Hell, o cérebro reptílico, através da sua acção inconsciente, começou por responder de forma automática na adaptação ao ambiente, organizando instintos e reflexos para, muito mais tarde (evolução) aferir um papel regulador dos sentimentos (afectos). Já as emoções primárias, sem diferenciação cognitivo-afectiva, assumem uma expressividade mimética, motora, sígnica, pré-verbal, sendo atribuídas ao sistema límbico, enquanto potenciadoras da regulação relacional-comunicacional-inicial. Com o neo-córtex o homem consegue já integrar sentimentos e conceptualizar.


        E este último cientista conclui: “(...) O sistema cognitivo-afectivo do neo-córtex representa, em conjugação com o pensamento e a linguagem, o nível mais elevado da regulação dos sentimentos e oferece condições óptimas para uma interacção adequada com o ambiente” (Hell, 2009; p.138). Que se passa, então, com a Humanidade?!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A ENGUIA DA RIA DE AVEIRO



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        A enguia é um peixe da ordem dos teleósteos (ossatura completa), da família dos Murenídeos (como a moreia), embora mais fino, longo e cilíndrico do que esta, da subclasse dos teleóstomos (completo mais boca), isto é, dotado de esqueleto completo, mais ou menos ossificado, boca e opérculos protectores das cavidades branquiais. A enguia, que também dá pelo nome de eiró (diminutivo latino de hidra), procede etimologicamente do latim anguilla.

      Esta curiosa espécie aquática, muito cobiçada, não só na ementa gastronómica de Portugal, mas também de outros países, possui um elevado valor comercial, sendo cá servida, principalmente, de caldeirada ou frita. A Anguilla anguilla, na época da reprodução, desce aos 400 metros de profundidade no Mar dos Sargaços, seguindo depois os milhões de larvas o capricho das correntes, ao longo de cerca de três anos, até às costas da Europa. Nesta fase, ainda minúsculas e transparentes (enguias-de-vidro), procuram penetrar a foz dos rios e áreas lagunares (Ria de Aveiro – Torreira, São Jacinto, por exemplo), em busca de águas tranquilas dulçaquícolas e salobras onde permanecerão até à adultícia – cinco anos as fêmeas, e sete os machos.

        Na altura certa, um surpreendente e enigmático instinto vital de reprodução chamá-las-á de novo ao Mar dos Sargaços, desovando entre Março e Julho, depois de uma viagem inelutável, sem paragens nem alimentos, acabando por morrer exaustas, para que os juvenis se possam dirigir também aos estuários da Europa, a partir do Atlântico, do Mediterrâneo, do Mar do Norte e do Mar Báltico.

      Tudo isto seria muito interessante se a espécie não estivesse há várias décadas sob a ameaça de extinção: a pesca dos juvenis (enguias-de-vidro), de forma desenfreada, desprovida de critério e por todos os meios, à qual se tem juntado a poluição galopante do seu meio ambiente podem estar a comprometer seriamente a manutenção de tão salutar hábito alimentar. Quem tudo quer, tudo perde.


      Nota breve: Nomeie-se também, a talho de foice, a lampreia, por ser o tempo dela e ainda por se tratar de mais uma incontornável iguaria gastronómica. Não é um peixe, não senhor; é um ciclóstomo ágnato [(do grego – boca redonda sem mandíbula) provida de potente ventosa interior], corpo cilíndrico e longo, desprovido de esqueleto, que vem desovar, ao contrário da enguia, na nascente dos rios, onde chega no início de cada Inverno, depois de uma longa e imparável peregrinação marítima, morrendo, do mesmo modo, em seguida. Os juvenis desta espécie vão crescer no alto mar.

POSTSCRIPTUM




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Rio, inquieto, transformado em onda,
Na água dos versos, engrossando o mar,
Eis a Ideia lúcida, redonda,

Em letras, rudes formas de expressar,
O mundo ideal que a nossa mente cria,
Em fervoroso, vívido sonhar,


Nos páramos supernos da Harmonia!


xxxxxxxxxxxxxxxx


Esteves dos Santos - 1943

A CULTURA HIPNÓIDE




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         Nos tempos que vão correndo, e ao contrário do que se possa levianamente pensar, as sociedades ditas civilizadas, globais, vão alimentando, de forma automatizada, robótica, mimética e seguidista, anestesiada e dormente, uma espécie de cultura hipnóide, que tem petrificado as relações sociais, no âmbito de uma intersubjectidade cada vez mais descaracterizada e autofágica.

       Por cultura, entendemos o enriquecimento cognitivo, logo, intelectual, e a consequente, pertinente e legítima prática social das competências adquiridas através desse processo; por cultura percepcionamos ainda a genuína autenticidade dos valores, costumes e património artístico que as comunidades do passado nos legaram; a nossa sensibilidade cultural abarca também os vários códigos, padrões, crenças, assunções, institutos e criações de pertença, identidade e afirmação da nossa vida pessoal e social no seio do tecido comunitário.

      Por hipnóide, julgamos tratar-se de um estado de dormência que afrouxa, diminui ou elimina a capacidade cenestésica do indivíduo, obscurece o ritmo dos processos intelectuais e obnubila a consciência. A cultura, portanto, implica uma prática quotidiana absolutamente esclarecida e cristalina, muito longe de qualquer influência hipnóide. No entanto, o que se passa é precisamente o contrário.

    Fernando Pessoa (1888-1935), nos seus escritos filosóficos, escreveu que (citação de memória) foi a dinâmica da colectividade a recorrer, através da democracia, à coesão social pelo voto maioritário, depois de ter sido gorada a coesão por instinto; ou seja, a democracia surge então como uma espécie de artifício, de habilidade, de combinação sagaz para fazer face à iminente barbárie. Mas não chega. A democracia tem de se reinventar, para que o Estado deixe de ser paternalista e narcotizante, a reboque da espectacularidade- circular-autofágica da estafada sociedade de consumo, “passiva e pardacenta” – na terminologia de Pessoa.

    Com a globalização, a ditadura dos mercados, a uniformização dos comportamentos atitudinais, a padronização das tendências, os esteriótipos, as necessidades artificializadas, as novas tecnologias de informação e comunicação, geradoras, estas, dos mais terríveis delírios alucinatórios, pacificamente aceites e cada vez mais potenciados, através da ilusão descontextualizada, mas, em tempo-real, da ubiquidade, da omnipotência e da omnisciência, a cultura hipnóide e, quiçá, paranóide, geradora do pensamento único e formatado, tem vindo a avançar, de forma viral, tudo minando e contaminando, ante a impotência do próprio estado que, contra todas as expectativas e probabilidades se declara seu adepto.


    Encontramo-nos perante um desolador quadro de dessimbolização, o que configura um evidente retrocesso civilizacional, de clara alienação, já que os indivíduos cada vez escrevem pior, vão lendo menos ou mesmo nada (literatura consensual), comunicam de forma pobremente sígnica e interjeccional, isto é, afastam-se cada vez mais do outro, isolam-se sem se darem conta, deixando assim de viver, de compreender o seu papel existencial e de perceber o que querem para a sua própria vida.

        Resta-nos, ainda assim, lutar contra a cultura hipnóide e apostar nos núcleos de cultura-genuína-resistente, existentes em certos nichos regeneradores-sustentáveis, por enquanto latentes mas promissores, restauradores da nossa identidade cultural, a vários níveis, aguardando apenas quem os manuseie e promova com verdade e honestidade, como forma de contrariar a desagregação e o caos social, quer em Portugal, quer no resto do mundo.